segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A inevitabilidade do Homem Normal, parte I



A ordem mundial, na sua perspectiva ocidental, será profundamente afectada pela fome, pela miséria, pela doença e pelas alterações climáticas. O crime violento fará parte deste cenário dantesco em que nenhum de nós desejará ver o seu pior inimigo envolvido.
Não sei se acontecerá nos próximos anos, sei que acontecerá neste século. E já não é evitável.
Existem dois problemas de fundo, estruturais, que, para além de não terem sido resolvidos no século XX, se têm agudizado no princípio deste novo século.
De um lado a pressão economicista e financeira, que persegue cegamente a fomentação da riqueza, do outro a completa ausência de valores sociais e humanos.
Ambos têm a mesma origem, contudo. Fundam-se no capitalismo liberal, a doutrina política e económica dominante do século XX. O facto de o século ter sido atravessado por uma corrente ideológica que funde a economia e a política é o primeiro erro grosseiro: ambas exigem controlo e regulação e ambas se deveriam ter regulado, sempre por oposição. O que esta fusão de ideais legitimou, foi a ideia de que se a economia estiver bem, tudo está bem, nada poderá correr mal.
Esta legitimação só poderia ter sido dada pela política, pelos políticos que abraçaram a teoria, falsa, de que o capitalismo era um modelo de estado. Mas não é. Os estados não podem fundar os seus ideais em modelos económicos. O resultado está à vista.
Não pensem os defensores da política marxista-leninista implementada na URSS que as doutrinas comunistas pré-queda do Muro de Berlim seriam diferentes. Estas executaram um modelo de gestão baseado no socialismo de estado, em que a economia era completamente controlada por este, que entendia legítimo o controlo absoluto. Era exactamente o mesmo modelo de gestão, mas invertido, isto é, num caso a economia e a finança controlam os ideais de estado, neste caso o estado controlava os ideais económicos e financeiros. O resultado está à vista, não funcionou, caiu de podre.
O que é muito difícil de entender pelo Ocidente é que o seu modelo de gestão tenha o mesmo erro, sobretudo porque ele vinga agora em quase todo o mundo, até numa China comunista e, agora que se converteu, próspera. E aqui reside o segundo erro: a definição de prosperidade. Entendeu-se, durante todo o século XX, que a prosperidade se definia em valores pecuniários, índices de bem-estar, bens materiais e poder de compra. Um estado próspero é um estado rico, com gente com muito dinheiro para consumir, que volta a colocar o dinheiro em circulação e assim por diante. Se não chegar, pede-se à banca, se o país precisar pede a outro e assim por diante. É uma pescadinha de rabo na boca, que parece nunca acabar. Mas é finito.
O que este esquema criou, logo, foi uma divisão terrível entre países ricos e pobres. Esta clivagem é brutal e foi criada pelo Ocidente, porque precisa dos recursos destes estados pobres (pobres pelos padrões capitalistas liberais), para continuar a criar riqueza, para florescer e se desenvolver, mantendo os elevados padrões de vida dos seus cidadãos.
O que é imensamente perverso neste sistema é que as populações dos países pobres morrem de fome, miseravelmente, todos os dias, recebendo esmolas dos ricos para minorar os efeitos do infortúnio, que ajudam por filantropia, como se a miséria destes povos fosse um problema apenas deles.
A doença completa um cenário de desgraça extrema, em que todo o tipo de maleitas, desde a malária até ao VIH grassam por estas almas, livremente, agudizando a sua condição, que de humana já nada tem.
Estes povos, colonizados pelos ocidentais capitalistas e comunistas, de diversas formas, em diversas épocas e com interesses tão díspares como o roubo da sua riqueza ou a sua ocupação por motivos estratégico-militares, retirou às suas populações a grandeza da sua terra e, numa espiral incontrolável de corrupção, violência e hipocrisia deixou-as na situação em que hoje se encontram.
Este primeiro efeito colateral da gestão política catastrófica que tem sido executada no planeta é brutal e é um problema de todos, por mais que nos queiramos fechar no nosso quintalzinho e achar que tudo vai bem.
O quintal do vizinho pode estar bem, mas o bairro vizinho está doente, muito doente e precisa de ajuda. No entanto, os democratas ocidentais compram e vendem no bairro vizinho, subornando o gangster mor para que lhes dê a riqueza da sua terra, aceitando em troca as armas ocidentais, o capital, a protecção e o acesso à banca suíça para guardar o dinheiro sujo e sangrento que recebe, todos os dias, todos os anos. Perpetuam-se no poder, nalguns casos, mais do Saddam Hussein, e ninguém os destitui.
Um erro que vai ser chorado, sofrido e carpido pelo Ocidente.

(continua)

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Pobreza ignorada

Todos os dias evitamos olhar para o lado, sabendo que lá estarão exemplos de pobreza extrema. Cínicos, a maioria de nós pretende ignorar esta chaga social que mancha a malha urbana das cidades mundiais.
Enquanto não houver uma consciência social verdadeira, pura, sobre este flagelo global, o mundo será sempre um lugar em que os cínicos irão desviar o olhar, pretendendo nada existir que possa afligir a ordem estabelecida. No entanto, cegos pelo seu cinismo, não reparam que essa mesma ordem está tão podre como estas barracas.
Este comentário e esta notícia não existem. Ou melhor, existem apenas para alguns.

(este texto é um comentário a uma notícia do Expresso, com o link abaixo)

http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/464342

Fórmula de pobre


Os portugueses não conseguem perceber que o aumento do volume de facturação pode ser atingido de duas formas: aumentando o preço unitário de venda e mantendo o número de unidades vendidas ou diminuir o preço unitário de venda e aumentar o número de unidades vendidas. O povo que pede para os automóveis uma política fiscal mais equilibrada, raramente utiliza a mesma perspectiva para analisar o seu negócio, isto é, aumentar o desconto para potenciar o volume de facturação. Assentam o raciocínio no pressuposto de que a margem de uma unidade é tudo. Não têm uma visão global da actividade que desenvolvem e suas implicações.
É crónico na nossa sociedade, revela um povo pouco preparado para os desafios da gestão e nada preparado para o risco, para a decisão, para a proactividade e para a condução do seu próprio destino.


Ora, com o estado passa-se exactamente o mesmo, até porque os cavalheiros que por lá têm passado fazem parte deste grupo de portugueses sem visão, que prefere ganhar muito hoje, num negócio, do que ganhar ainda mais, durante o mês, fazendo mais negócios. E por isso é que os automóveis são estupidamente tributados. Não só o acto de compra e consequente legalização é absolutamente incomportável, bem como todos os outros actos naturais no quotidiano de um automóvel são insuportáveis para a carteira do homem normal português. IUC, seguro, portagens, combustíveis têm preços megalómanos e que poucos suportam com à-vontade.
Para pegar num exemplo simples, um veículo do segmento médio (Golf, Astra, C4), com motor 1.6 litros a gasóleo que custe € 27000,00, paga em ISV e IVA €7500,00, ou seja 27,2% do valor total de aquisição.
Mas, se a mesma viatura tiver um motor com 2 litros paga €14000,00 de impostos, ou seja, dobra o valor dos ditos, ficando com um preço final de €35000,00. E assim sucessivamente. Esta é a lógica do Imposto Sobre Veículos, já era a lógica do imposto anterior, ambos taxados de IVA, para que dúvidas não haja em relação às necessidades do estado em matéria de receita fiscal.
Em Espanha, para não ir mais longe, no primeiro caso o preço será de €22500,00 e no segundo, €25500,00.
Em Portugal adquire-se uma viatura pior, por um preço superior. Se compararmos o preço da versão 2.0 litros em Portugal e Espanha, um português pagará mais dez mil euros pelo mesmo bem. Um português que é mais pobre, ganha muito menos que o seu compadre espanhol, vê-se obrigado a pagar por um bem essencial aquilo que ele não vale.
Voltando ao raciocínio inicial, se o estado tivesse o arrojo de legislar bem (e com legalidade), permitindo aos portugueses comprar melhores viaturas por menos dinheiro, vender-se-iam mais e melhores automóveis, dinamizar-se-ia um sector muito importante da economia, aumentar-se-ia a segurança na estrada, reduzir-se-iam os acidentes e os mortos e estropiados nas estradas portuguesas, vender--se-ia mais combustível e teríamos um povo mais feliz, menos endividado e com mais dinheiro no bolso para consumir, adquirindo outros bens que pagam IVA e cuja receita reverte a favor do estado. Mas para isso, os nossos políticos teriam que ter visão, capacidade de gestão e inteligência para perceber o efeito benéfico, para o estado, de uma boa decisão. Como somos uma cambada de maus gestores, temos como modelo de imposto sobre os automóveis, o modelo de gestão que aplicamos no nosso negócio. Parolo, limitado e ineficaz. Em suma, atrasado, tão atrasado como o país. Pobre.

domingo, 23 de novembro de 2008

Não se mente, não se mente

Apenas para que se saiba que o vosso primeiro-ministro não mente e tem bons princípios.
A peixeirada é secundária.
Depois leiam o artigo do Jornal Sol, logo a seguir.
Bons princípios e coerência, nada lhes falta.

Quem dá e tira, para o inferno vai

Educação

Sócrates entregou Magalhães só para a fotografia

Por Margarida Davim


José Sócrates esteve na Escola do Freixo, em Ponte de Lima, a entregar computadores aos alunos do 1.º ciclo. Mas, depois de o primeiro-ministro ir embora, as crianças tiveram de devolver os Magalhães

A Escola do Freixo, em Ponte de Lima, foi o palco escolhido por José Sócrates, na passada quarta-feira, para mais uma acção de promoção dos computadores da JP Sá Couto para o 1.º ciclo. Sócrates chamou os jornalistas e distribuiu os Magalhães pelas crianças. Mas, terminada a cerimónia oficial, os portáteis tiveram de ser devolvidos.
Contactado pelo SOL, o conselho executivo da Escola do Freixo explicou que as crianças não puderam ficar com os computadores, «porque há questões administrativas a tratar».
A mesma fonte – que não se quis identificar – assegura que os Magalhães «estão na escola», mas explica que isso não significa que os alunos do Freixo vão receber os portáteis mais depressa do que as crianças de outros estabelecimentos de ensino.
«Não sabemos quando é que os computadores vão ser distribuídos», admitiu, acrescentando que a entrega «depende da logística administrativa».
Antes da entrega real dos equipamentos, a escola vai ter de «preencher toda a papelada e os pais que não estiverem abrangidos pelo 1.º escalão da acção social escolar vão ter de fazer o pagamento do computador». Um processo que a escola admite desconhecer quanto tempo poderá demorar.
Fica também por esclarecer se os Magalhães que Sócrates já deixou na escola serão suficientes para todas as crianças. A Escola do Freixo tem 185 alunos inscritos no 1.º ciclo, mas o conselho executivo diz não saber quantos portáteis foram entregues na cerimónia que contou com a presença do primeiro-ministro. «Não sei quantos computadores cá ficaram», disse ao SOL um elemento do conselho executivo.
Ao que o SOL apurou, foi explicado a alguns alunos que os computadores tinham de ser devolvidos no final da visita de Sócrates por terem problemas nas baterias. No entanto, o conselho executivo da Escola do Freixo garante que «as crianças sabiam» que não iam ficar com os Magalhães naquele dia, porque lhes «foi explicado que era preciso realizar alguns procedimentos administrativos».

margarida.davim@sol.pt



Este paspalho não tem mesmo vergonha nenhuma. A notícia do semanário Sol que tomo a liberdade de publicar é o retrato perfeito de um indivíduo que começa a bordejar a loucura. E cuidado, o último louco esteve lá mais de quarenta anos.
Então não é que o saloio usa as crianças como arma propagandística, tal e qual uma ditadura sul-americana, goza com todos e continua com a sua vidinha?
Tenho que reconhecer que para argumento de filme low-cost americano não está mal de todo. O problema é que este indivíduo já ultrapassou todas as regras, todo o decoro e decência, na vida real.
Quem ainda elogia este tipo está tão doente quanto ele.
Brincar com os sentimentos e sobretudo, com a ingenuidade das crianças é inqualificável. Não sei se este tipo está cego, tomado de cegueira branca ou se alguém o sodomizou em criança, mas que a atitude da besta é absurda e absolutamente paranóica, não há dúvidas. Vale tudo.
Quanto aos professores que aceitaram a palhaçada e a abençoaram, julgam ter feito um jeitito ao tipo e, claro, um jeitaço a si próprios. São ainda piores do que ele.
Não há gente séria, todos são feitos da mesma merda.
Da merda que tem grassado pelo país e que o tem desgraçado, desavergonhadamente.

Mudam os tempos, mudam os discursos

O nosso querido Mário, nos tempos em que ele dizia ao povo para acreditar nas balelas da igualdade e de uma sociedade sem classes.
Este Mário é o Mário de hoje, ele próprio de uma classe à parte, com muitos privilégios e sem pudores ou arrependimento.
Não foi o único a converter-se ao capitalismo liberal, à engorda acelerada e ao discurso bacoco subordinado ao tema da economia e da finança.
Está gordo e anafado. E já não diz nada que entusiasme.

Lehman, irmão


Recordam-se da falência deste gigante financeiro americano, certamente.
Faliu este ano, com estrondo, deixando os mercados boquiabertos.
Publica-se uma pequena parte do seu site, onde se resumiam os feitos dos últimos dois anos desta empresa megalómana, muito bem cotada e muito bem considerada, pelos igualmente bem cotados e bem considerados analistas experts.
Se lerem, nem precisam de o fazer com muita atenção, perceberão que estes cavalheiros eram primus inter pares. Estavam em primeiro em quase tudo, senão mesmo em tudo e por isso não se percebe como é que estes idiotas caem em menos de nove meses…
A não ser que os louros de 2007 fossem “fabricados”. Nesse caso, não estaríamos em presença de gestores mais-que-muito-bem-pagos e ainda-mais-do-que-isso-incompetentes, mas sim em presença de comuns vigaristas e aldrabões, aprendizes de feitiçaria por correspondência, pouco diferentes dos intrujões baratos que se governavam com o conto do vigário. Só que mais bem pagos, muito mais bem pagos, legitimamente pagos.
Escolham, porque a mim tanto me toca. Como sempre.

(clique na imagem para visualizar)

Cavaco, o salvador






Recordam-se da euforia com que Cavaco foi eleito Presidente da República?
Era o salvador da Pátria.
Desiludidos?

O programa do PS, em 2005

A propósito do que se diz e do que se faz, publica-se um excerto do programa eleitoral de 2005, do PS, em que este explica o que vai fazer para qualificar o investimento público.
Não tenho dúvida nenhuma que se fosse o programa de outro partido qualquer teria desígnios igualmente nobres. Tenho a certeza que também não seria cumprido.
Quais foram os investimentos de carácter predominantemente social? A competitividade externa do pais está muito melhor? Portugal é agora uma economia emergente? A ciência? A sociedade de informação? Apoio ao turismo? As energias alternativas têm sido pagas pelo contribuinte, na factura da EDP.
Alto conteúdo de inovação? O Magalhães, claro, que tanto quanto se sabe não teve dinheiro público para o seu desenvolvimento. Tem o Sócrates como promotor.
Se há uma nova categoria de programas, para resolver os problemas especialmente graves da sociedade portuguesa, poderemos certamente enquadrar o TGV, o Aeroporto de Alcochete e a nova ponte sobre o Tejo nesta categoria. Afinal, entre o betão outrora criticado e o betão de hoje, não parece haver diferença nenhuma.

"5. Qualificar o investimento público
O investimento público bem direccionado é uma alavanca importante para a competitividade da economia portuguesa. Iremos defender que sejam excluídas do calculo do défice orçamental para propósitos do Pacto de Estabilidade e Crescimento as despesas de investimento relacionadas com a aplicação da Agenda de Lisboa.
Além disso, será introduzido um novo modelo de avaliação da rentabilidade do investimento público e das despesas diferidas a que este pode dar origem, o que, a par de um processo de gestão orçamental numa lógica plurianual, vai permitir uma aplicação mais eficiente dos recursos disponíveis. Também será tida em conta a necessidade de acabar com as cativações de verbas orçamentadas, que não têm qualquer utilidade e são fonte de desinformação.
No que respeita à estrutura do investimento, ou seja, à sua distribuição pelos diversos sectores de aplicação, serão adoptados três princípios:
• A prioridade aos sectores de carácter eminentemente social e aos investimentos que melhorem a competitividade externa do país, em especial nos domínios da ciência, sociedade de informação, apoio ao turismo e energias alternativas;
• Selectividade no apoio ao investimento privado, incentivando prioritariamente
investimentos com alto conteúdo de inovação, certificação de qualidade e carácter
estruturante, que permitam a abertura de novos mercados para as actividades
produtivas portuguesas;
• Considerar a criação de uma nova categoria de programas destinados a resolver
problemas especialmente graves da sociedade portuguesa, tais como o combate aos
incêndios, a redução drástica da sinistralidade rodoviária e a redução do abandono
escolar."

sábado, 22 de novembro de 2008

Até quando?

Combater a recessão, conselho para a normalização


Foi interessante observar políticos e empresários portugueses e europeus em Sintra, sem gravata e à vontade, a discutir calmamente o melhor remédio para esta recessão mundial, que parece não querer acabar tão cedo.
É óbvio que é preciso tomar decisões, pesadas, aliviar a banca do fardo que carrega e ajudar as empresas e as famílias a voltar a consumir, para que a tal recessão não se instale definitivamente.
Estas macro medidas, tomadas em conjunto por todos os estados membros da União, estão ao nível destes ilustríssimos cavalheiros.
Já tínhamos visto os G-20 a jantar, bebendo grandes (leia-se muito caros, muito caros mesmo) vinhos, mostrando ao mundo que mais vale morrer de barriga cheia do que com ela vazia. Verdade, mas apenas para quem pode.
Ver esta gente principescamente paga, do alto dos seus poisos doirados, alvitrando coisa séria que interfere com a vida do comum mortal é irónico. E a ironia está no facto de, nem estes cavalheiros, nem nenhum dos seus assistentes, nem nenhum dos assistentes dos assistentes, fazer a mais pequena ideia do que é viver a vida do homem normal. Mesmo que a empregada lá de casa seja hispânica ou africana e esteja ilegalmente no país.
O que esta gentinha não sabe é que há vida para além do voto. Há quem tenha que viver nos intervalos das eleições, nos intervalos das crises e nos intervalos das cavaladas e irresponsabilidades de suas altíssimas majestades.
Se estes cavalheiros tivessem outro tipo de conhecimento prático da vida do homem normal, jamais esta e quiçá outras crises teriam acontecido.
Se, por um momento, a George Bush fosse pedido para decidir se estafa o plafond da conta ordenado para ir ao dentista ou se continua com aquele mau hálito que fede e assegura a paparoca lá para casa, este perceberia imediatamente a lucidez com que o homem normal tem que viver.
O homem normal nasce, vive e morre para pagar contas, votar nestes cavalheiros e assegurar que os seus filhos terão futuro igual, assegurando aos filhos destes ilustres bichos um futuro igual aos dos seus inteligentíssimos papás.
A grande treta da igualdade de oportunidades, por oposição à igualdade imposta pelo comunismo, nunca passou de uma miragem e, tal como esta última, não passa de uma balela propagandística.
Estes camaradas liberais, impotentes, frouxos e sem qualquer sentido de responsabilidade, continuam convencidos que o caminho é o capitalismo, apenas e só porque os capitalistas são eles, os seus amigos influentes e a corja que rodeia esta vilanagem. Como são legitimados pelo homem normal, que continua burro, tudo faz sentido e é perfeitamente democrático.
O homem normal, quando perde a cabeça e passa um cheque careca para pagar a prestação do carrito, está tramado porque cometeu um crime. Não tem qualquer atenuante porque precisa do carro para trabalhar, para levar o puto à escola e nem mesmo porque ajudou a engordar os camaradas do petróleo vê a sua pena reduzida.
Estes políticos e estes empresários destroem bancos, enriquecem brutalmente, exigem que o estado (leia-se as contribuições do homem normal) seja usado para tapar o buraco gigantesco que cavaram, tudo em nome da economia real, aquela de que o homem normal precisa para alimentar o puto e pagar o popó. Tudo a bem da humanidade.
Se o homem normal quiser continuar burro, a ordem que existe manter-se-á, solidificará e o futuro será ainda mais incerto para ele.
Se o Homem Normal quiser sair do seu invólucro de burrice e gritar bem alto as suas razões, estes chicos-espertos que se gostam de coçar sujam os slips, desculpem, as cuecas, e fogem.
Para longe.

Ainda há quem duvide?

Entre 1979 e 2005 este foi o degelo que aconteceu no Pólo Norte.
Como sempre, esperem que tudo aconteça e depois deitem-lhe paninhos quentes em cima. Ou dinheiro a rodos. Se o tiverem.

Sem remédio

Poucas pessoas dizem com tanta clareza o que somos e o que são os nossos políticos.
Medina Carreira, vida longa.
O povo que acorde.

Os exploradores



Estes são os fantásticos resultados da PT, nos primeiros nove meses do ano de 2008.




Este é o rendimento oferecido por estes exploradores a quem quiser contribuir com sangue, suor e lágrimas para os resultados chorudos da empresa.
Não há vergonha nenhuma.






(clique nas imagens para aumentar)

iPhone ou ai fóne?



Já nada é como antigamente. A Apple e Steve Jobs são (ou eram?) uma referência mundial, marca e criador respeitados e admirados.
No entanto, parece que desta vez deixaram os seus dotes em mão alheia.
Não é possível que as preocupações ambientais não estejam no topo da to-do list deste (agora do mal?) geniozinho.
Reinventem-se. Mesmo.

40 anos



Há alguns coleguinhas que estão a precisar de queda igual.

Os trabalhos do Sebastião



Não comento, porque eu aqui estou na minha outra qualidade, das várias que tenho…
Não vejo nenhum problema, o meu caso é muito particular... É o meu caso!
Isto do meu dá mau resultado. Costuma dar apenas resultado para o eu, nunca para todos. Mas não se censure o eu do Sebastião, que eus como ele há cá muitos e candidatos a eus como ele, ainda há mais.
Eu, se pudesse, mandava o eu para as Berlengas. Ou melhor, para os Farilhões, porque eu gosto de ir às Berlengas.
Agrada-me…

O BPN





Não vou comentar, porque não sei se são todos sérios.
Há dias em que é melhor ser sincero, não é verdade?

10 anos

A Fnac comemorou dez anos de actividade em Portugal.
Dando um exemplo extraordinário de gestão, comunicação e proximidade com o seu público, deu uma borla à malta e abriu as portas do Pavilhão Atlântico a cinco bandas portuguesas: Xutos & Pontapés, Clã, Deolinda, Rita Redshoes e Peixe:Avião.
Um espectáculo que demonstrou bem o efeito transgeracional da Fnac, dada a diversidade de público que se deslocou ao multi-usos de Lisboa.
As bandas portuguesas estão em grande forma, nada ficam a dever às suas congéneres inglesas ou americanas e só não percebo porque é que não têm mais sucesso lá fora. Ou se calhar até percebo…
Muitos parabéns e que daqui a dez anos lá estejamos todos outra vez… Se calhar os Xutos até se dispensam, se os miúdos se quiserem reformar daqui até lá…

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Código quadrado

Sem ideias, o PSD e o CDS conluiem com o PS. Ainda que o não fizessem, a maioria do PS aprovaria na mesma um código de direita, o que reforça a falta crónica de ideais e de carácter destes mercenários que dizem servir a pátria.
Estes incompetentes acham que temos que ter um código de trabalho ao estilo liberal, caso contrário a competitividade das empresas portuguesas não será suficiente para poder ombrear com as suas congéneres mundiais.
Aquilo que estes impostores irão conseguir fazer com este novo código é aumentar a pobreza, a precariedade (palavra já gasta) e a instabilidade das famílias portuguesas.
Atrasados, como sempre, aprovam um código demodé, numa época em que se repensam com muito mais cuidado as ligações e as relações das empresas com os seus funcionários, bem como as responsabilidades sociais destas e do próprio Estado.
O ultra-liberalismo capitalista está tão podre e gasto como o modelo de esquerda socialista soviético.
Por outro lado, não vemos estes caciques preocupados com a qualificação da mão-de-obra, desenvolvendo programas de investimento estratégico na formação teórica, prática e técnica dos portugueses. Para estes políticos incompetentes é mais importante liberalizar as relações laborais do que corrigir a política de impostos sobre as empresas, obviar o seu financiamento, premiar e apoiar o seu desempenho e a sua internacionalização, pagar-lhes atempadamente, formar os futuros portugueses correctamente e de acordo com elevados padrões de exigência ou, até, obrigar a banca a ter uma política de apoio ao desenvolvimento das PME que funcione.
Incutir no povo um elevado sentido cívico, elevados padrões de consideração pelo próximo, sentido de solidariedade social, espírito de coesão nacional e motivação pela excelência, são balelas e tretas de ideólogos demagogos.
Basta que o código do trabalho seja mais flexível, que se possa contratar e despedir com mais facilidade, que se possa experimentar alguém durante seis meses ou que, simplesmente, me apeteça despedir um plebeu, tarefa agora mais simplificada porque só ouvirei as testemunhas do rústico se me apetecer. Se tiver que ir enfiar a pen nalgum sítio poderei não estar para aí virado, que não vem mal nenhum ao mundo.
O que estes falsos socialistas não conseguem perceber é que o povo que todos os dias renegam, que todos os dias violentam, é o sustentáculo do desenvolvimento de qualquer sociedade. Disso lembram-se apenas quando, em nome do povo, usam o dinheiro das suas contribuições para salvar a porcaria que outros que pensam e agem como eles andaram a fazer, na banca, por exemplo.
Em relação ao PSD não haverá surpresa no sentido de voto, uma vez que não estão nem deixam de estar. Como sempre, dão para o lado que der mais jeito e assim continuarão.
Do PS, seria de esperar que os seus supostos ideais de esquerda fossem preponderantes quando estão em discussão questões desta importância para o nosso país.
Iguais a si próprios, os comunistas, os Verdes e BE votam contra tudo o que tenha a palavra trabalhador escrita por um capitalista. Para este código o voto é obviamente não, o que os coloca numa posição confortável perante o povo trabalhador.
Já o CDS deveria aprovar, de pé, este código. Aplaudindo.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Trinta e cinco



Trinta e cinco anos a completar em Abril, a 25.
Quando os nobres Capitães de Abril resolveram acabar com a ditadura de Marcelo, abriram uma Caixa de Pandora extraordinária. Hoje começamos a perceber com clareza o que nos reservava essa caixa e quão intricado era o seu conteúdo.
Ao povo foi prometido o fim da opressão, da distribuição desigual de riqueza e da perseguição política; começava uma era em que se escolheriam os políticos, nas urnas, gente que seria mais transparente, mais competente e mais honesta. Gente do povo, para governar o povo, o que significava também o fim das cunhas.
O fim do capital foi um grito de ordem dos revolucionários; doravante a igualdade entre classes seria uma realidade, os ricos não seriam cada vez mais ricos e os pobres não seriam cada vez mais pobres. A miséria, essa, acabaria de vez.
A saúde para todos, através do SNS, vinha para ficar e o Estado seria, agora sim, uma pessoa de bem, olhando pelos seus como um bom pai de família.
Os ideais políticos, a discussão desses ideais, a troca de ideias, a argumentação tenaz de todos os políticos, da esquerda, do centro e de direita, contribuíam para o esclarecimento do povo, para o enriquecimento da democracia e para a maturidade de um sistema que só podia ser aplaudido. Portugal era finalmente um país livre, apto a abrir-se para o mundo e fazer crescer o seu povo e as suas instituições democráticas, enfim libertas do gesso opressor do Estado Novo.
O povo estava motivado, participativo, eufórico, radiante, cheio de vontade de fazer acontecer. Votar, escolhendo o caminho por maioria e democraticamente. Cooperar, rumo a um futuro melhor, com mais educação, mais formação. As gerações futuras seriam mais competentes, mais capazes e mais rigorosas.
Tristemente, a grande maioria destas promessas não se tornou realidade.
Logo após a revolução o povo tomou de assalto o património da maioria dos ricos, do capital. O latifúndio foi derretido, em poucos meses. O povo ocupou as empresas, as fábricas e os labores agrícolas dos ricos e desavergonhados exploradores, que se amanhavam com o trabalho alheio, pagando miseravelmente ao povo, explorando-o vil e cobardemente, com a protecção do Estado, leia-se Novo. O Estado, agora já não Novo e sim Revolucionário, apoderou-se das empresas privadas, nacionalizando-as com a mesma moral com que Salazar havia governado o país durante décadas. Do Portugal atrasado e desigual, opressor do povo, nasceu um Portugal pretensamente igualitário para os trabalhadores e desigual para os empreendedores, opressor do capital privado e do desenvolvimento, da ordem e do progresso. Muitos capitalistas escaparam- se para o Brasil, para aí recomeçar uma vida.
Por muito pouco não se juntou a este cardápio a opressão, agora da outra mão, mas igualmente castradora, igualmente terrível e censurável.
Do Ultramar chegaram hordas de portugueses, os que não foram chacinados pelas hordas de povos sublevados, que lutavam pela sua independência há anos. Vieram quase todos com uma mão cheia de nada, à procura de um canto sossegado, sem guerra e sem violência. Desenrascaram-se como puderam, refizeram as suas vidas como conseguiram. Todos vítimas de um Estado apressado demais em demonstrar que era democrático e nada preocupado em acautelar a vida, os bens e a sanidade do seu povo ultramarino.
Depressa se percebeu que a vida no Reino não havia medrado. O Reino estava em frangalhos, sem norte, desnorteado. A PIDE acabara, nem tudo era mau, mas dinheiro não havia, o povo estava teso e as condições de vida não melhoraram. A inflação era real e a bancarrota estava prestes a tornar-se verdade. Estes dois monstros papões, tão temidos na altura como hoje, preparavam-se para tomar Portugal. Mas Portugal não acabaria assim.
No final dos anos setenta, com a AD de Sá Carneiro, o país começou a endireitar-se, embora muito pouco e com esforço considerável. Havia um ideal, um projecto e uma visão de futuro, ou pelo menos parecia haver. A morte do então primeiro-ministro voltou a manchar os desígnios de uma Revolução que a muito se propusera, mas que na realidade ainda pouco tinha feito. Um país que não descobre como morrem os seus, é um país fraco, nada justo e muito pouco inspirador. Diria mesmo, nada democrático. A Monarquia e o Estado Novo terão dado voltas na campa, mas o Estado Revolucionário ainda hoje entende que a descoberta da verdade é irrelevante.
Com Cavaco Silva, ou melhor, com a CEE, o Santo Graal volta a estar ao alcance do povo, agora conhecido pelos cravos vermelhos e pelos parcos nível de desenvolvimento, de escolaridade e de competência.
Com os triliões da Europa a entrar desenfreadamente, todos os dias, não houve português que não experimentasse as virtudes prometidas pela revolução da década anterior. Voltavam alguns dos capitalistas que haviam fugido para o Brasil e o Estado Revolucionário, transparente, começava a vender aquilo que lhes tinha roubado dez ou quinze anos antes. E a vender caro, muito caro. Muito poucos dos malditos capitalistas conseguiram reaver o que lhes havia sido roubado a seguir ao dia 25; outros voltaram a comprar o que já tinha sido seu, pagando a peso de ouro ao tal Estado Revolucionário o preço justo pela mercadoria.
Com tanto dinheiro a entrar nos bolsos do dito Estado não houve falta de betão, nem de cursos de formação. Até um Centro Cultural, com orçamento controlado e custo descontrolado e uma grande ponte, a maior da Europa, aqui nasceu, ou não fosse a capital o centro do Reino. O crédito vulgarizou-se, o português comprou casa e era finalmente proprietário do seu castelo e, não menos importante, do seu automóvel. Vestia-se bem melhor, ia almoçar fora com a família, passeava até ao Algarve e alguns até já iam à Madeira. Só que o português continuava burro e incompetente, porque o dito estado Revolucionário perdera o embalo da Revolução e em vez de ideias e de conhecimento, espalhava dinheiro. E o dinheiro não ensina nada a ninguém.
Portugal estava prestes a transformar-se num Estado capitalista e ultra-liberal, última moda proveniente das federações muito evoluídas como os States, ou a CE.
O hino ao capitalismo autenticou-se quando, incrédulos, assistimos à queda do Muro de Berlim e do socialismo comunista, criado, regulado e aplicado por esse mundo fora pela URSS. Com a queda do Muro, o seu modelo de Estado caiu também, dando origem à exemplar Federação Russa que hoje conhecemos, capitalista e muito pouco interessada em defender os interesses dos seus trabalhadores. Judo, petróleo e máfia.
Contudo, esta conveniente queda legitimou o capitalismo como único modelo possível de desenvolvimento, pelo que a maior parte dos países mundiais, Portugal incluído, o abraçou como a derradeira etapa rumo ao Céu.
Com alguns tropeções do Toneca, cujas dificuldades a matemática o tornariam célebre, um anito de aquecimento do José Manuel para voos mais altos, uns mesitos do Santana interrompidos por um corajoso e imparcial Presidente da República e uma maioria do Sócrates chegámos a dois mil e oito, prestes a entrar em dois mil e nove e a celebrar trinta e cinco anos de Democracia.
A caixa aberta pelos capitães e pelos seus camaradas estava cheia de surpresas, ninguém imaginaria.
Portugal é hoje um país absolutamente diferente. Eu posso escrever este texto e publicá-lo no meu blogue. Há mais automóveis, mais betão, mais estradas e auto-estradas que vão daqui para todo o lado, mais comboios, parece que vai haver TGV, mais centros comerciais, mais lojas e muito mais, mas mesmo muito mais capitalistas. Há também, dois milhões de pobres, de pobres que vivem abaixo do limiar de pobreza. Há ricos que são ainda mais ricos e pobres que são ainda mais pobres. Há uma agonizante classe média que não sabe se o dinheiro do mês chega para pagar as contas todas, porque as contas estão sempre a aumentar e o dinheiro sempre a diminuir.
Há gente que não pode pagar a casa onde vive e famílias inteiras da classe média que dependem de ajuda humanitária para comer.
Há tanta precariedade no emprego, que chamar nomes ao Estado Novo nesta matéria é indecoroso. O Estado, agora completamente de direita, capitalista e ultra-liberal, é o principal explorador do povo. Dá-lhe empregos com recibo verde, subcontrata para não ter que contratar, despede sem justa causa e transfere sem perguntar.
Este estado, que já vendeu todos os anéis do povo, suga agora o tutano das empresas, das pequenas empresas, das micro-empresas e do povo trabalhador. Usa uma maquineta chamada Fisco, que alega ser muito eficiente. É verdade, tem uma eficiência extraordinária para receber e uma ineficiência conveniente para pagar, para devolver ao povo aquilo que é seu.
Este estado, agora capitalista, paga e deixa que se paguem ordenados vergonhosos aos gestores e quadros superiores de empresas, públicas e privadas, obrigando o povo a viver com as migalhas que sobram. Povo a que este país já chamou de trabalhador, de gente que tinha que ter direitos, que tinha o direito a ter direitos. Gente que era explorada pelo capital. Hoje, a mesma gente é ainda mais explorada pelo capital, que agora se chama grande capital. E ao povo chamamos portugueses e portuguesas, porque povo é uma palavra revolucionária.
Os latifundiários voltaram em força, com o consentimento da classe política que, ao invés da classe que governava o Estado Novo, enriqueceu em três tempos, tratou de arranjar esquemas de reforma convenientes e de se espalhar pelas maiores empresas do país, garantindo lugares chave, de influência determinante para o futuro do povo. Na realidade a classe política tornou-se, ela própria, latifundiária.
Os cargos públicos são agora jobs for the boys, ou seja preenchidos por cunha, como se dizia antigamente. A cunha tem sempre as cores do poder. Só que agora há ainda mais boys e ainda mais cunhas.
Este é o país em que não sabemos qual a ligação que pode existir entre o político da res pública e uma empresa de computadores. O país em que não sabemos se a ligação que existe entre dois políticos, um que agora é gestor e outro que é ministro, teve ou não influência determinante num negócio em que estão envolvidos os superiores interesses da nação.
Este é hoje o país da justiça vergonhosa, das polícias desautorizadas e sem meios, dos tribunais em ruínas e das escolas fechadas. Este é o país que manda os seus filhos irem nascer a Espanha, apenas e só porque é mais barato. Este é o país em que se diminui o grau de exigência no ensino apenas para melhorar a estatística. Este é o país da anarquia financeira, em que bancos e gasolineiras fazem o que querem, como querem e quando querem. Este é o país das leis por medida, para satisfazer nichos ou empresas específicas, para desproteger o povo.
Este é o país em que o povo não sabe escrever nem sabe somar, mas que é doutor de qualquer coisa ou engenheiro de obras feitas.
Este é o país que tem sido governado pela mesma classe política desde 1974, pelos mesmos que se revezaram, se desdobraram e lá continuam.
O povo foi chamado a votar. Votou durante trinta anos, dando cada vez mais votos ao partido da abstenção. Disso pouco ou nada se fala, porque de conveniente para a classe que conduz nada tem. Noutros tempos seria um sinal, hoje em dia é irrelevante.
O povo teve a responsabilidade de eleger. Cumpriu.
Os eleitos não cumpriram. Foram estes cavalheiros que, durante trinta e cinco anos, não tiveram uma visão estratégica para Portugal. Não olharam para o futuro, não planearam e não se uniram em torno de uma causa nobre. Insultaram-se uns aos outros, sacaram responsabilidades a quem os precedeu, esquecendo-se sempre que haviam precedido quem lhes sucedeu. Deixaram, legislatura atrás de legislatura, um legado de incompetência, de laxismo e de vazio de ideais. Trocaram favores, jeitos e conveniências, em frente ao povo, em nome do povo. No governo não conseguem executar, na oposição têm as ideias certas e conhecem o método de implementação.
A classe política portuguesa não presta, porque não é competente. Não sabe trabalhar, cumprir a sua função. Não tem sentido de Estado.
Os idealistas de esquerda e de direita desapareceram, vendidos aos ideais do capitalismo selvagem. Não se discutem ideias, mas sim défices, inflação, taxas de juro de referência e avais para a banca.
Fala-se de dinheiro, de dinheiro e de mais dinheiro, num palavreado tecnocrático que irritaria até o Estado Novo. Gente que é vazia de conteúdo, estéril, governa este país como se da verdade fosse dona. Dão-se casas com rendas técnicas a quem ganha uma pipa de massa, grava-se meio orçamento numa pen, fala-se do escândalo de Felgueiras, mas ninguém se impõe, ninguém põe ordem no Reino e ninguém se responsabiliza ou é responsabilizado por nada.
Em bom rigor, Portugal está hoje muito pior do que estava em 1974. As exigências do mundo neste início de século são incomparavelmente maiores do que aquelas que existiam em Abril de 74 e Portugal não está nada preparado para os desafios do presente e do futuro.
O povo português continua a ter uma formação deficiente, está menos qualificado que os seus congéneres europeus e sofre de falta de motivação crónica. Seja o povo trabalhador ou o povo latifundiário.
A Espanha de Franco fez exactamente o oposto em trinta e quatro anos. A Irlanda é hoje um país desenvolvidíssimo. Até a Grécia, com quem discutíamos o último lugar na Europa dos 15, já nos passou faz muito. Nesta Europa dos 27, estamos prestes a fechar o pelotão.
E ainda só passaram trinta e cinco anos. Incompletos.

sábado, 1 de novembro de 2008

O Gato e o gospel

Finalmente conseguiram entalar os Gato Fedorento. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social vai abrir um processo contra os humoristas. Em causa está o sketch em que se satirizava a formação do Magalhães.
A peça, que usou cânticos gospel para parodiar as acções de formação do aparelho, foi considerada ofensiva pelos beatos e pelas beatas, escandalizados com tamanha heresia.
O escândalo reside apenas e tão só na mediocridade desta gente. Incapazes de se escandalizarem com a miséria reinante, com a educação deficiente, com a crise de valores que afecta a sociedade portuguesa, escandalizam-se porque se parodiou algo utilizando uma característica específica de uma determinada ordem religiosa. Nem sequer se satirizou a dita ordem.
Estes estafermos, falsos defensores da moralidade e dos bons costumes, ainda têm um peso desproporcionado na nossa sociedade. Apenas se tinham recebido, de acordo com o Jornal Expresso de hoje, cerca de cem queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social, o que é ridículo tendo em conta a audiência do programa.
Há alguns anos, por parodiar algumas figuras da História de Portugal, Herman José foi incomodado pelo parlamento e viu-se obrigado a acabar com a brincadeira.
Em ambos os casos estamos perante um acto censório, típico de uma sociedade fechada, retrógrada e subdesenvolvida. Se num caso são os beatos e beatas, noutro caso foram os deputados, o que me traz à memória a Inquisição e a censura política.
Há facções da sociedade portuguesa que ainda não se dão bem com a liberdade de expressão, que usam o seu poder de forma perniciosa para atingirem os seus negros objectivos.
Os Gato Fedorento têm tido a coragem de ridicularizar o que este país tem de ridículo. Felizmente para os quatro humoristas e infelizmente para nós, a lista de opções para este fim é interminável.
Esperemos que não os consigam calar, ou transformar em algo sensaborão, parolo e de mau gosto, como já fizeram com outros humoristas no passado.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

O murro e a formação

O murro do primeiro-ministro da República Checa desferido contra um repórter fotográfico e as cenas de circo da formação do Magalhães, são dois acontecimentos que evidenciam o estado a que chegaram as pessoas que têm como obrigação permanente a formação dos povos.
Ao agredir um fotógrafo em plena via pública, o homenzinho que governa a República Checa legitimou todos os actos de agressão semelhantes entre os seus concidadãos. Os exemplos são dados de cima para baixo. O pai educa o filho, embora já pouco se saiba acerca do que é educar. Se o contrário tivesse acontecido e, por razões que o próprio achasse legítimas, o fotógrafo tivesse agredido o primeiro-ministro, outra história teria sido comunicada ao mundo. Seria uma história dramática, em que alguém teria atentado contra a integridade física de um político responsável, sério, educado, defensor dos supremos interesses do seu país, pai devoto e homem respeitado. O agressor teria sido detido, teria sido interrogado durante horas, se calhar maltratado e acusado de agressão ou até, quem sabe, homicídio na forma tentada, se não tivesse sido aniquilado in loco.
No caso que as televisões transmitiram, foi apenas um nobre murro enfiado no focinho de um plebeu.

Nas acções de formação do Magalhães, os formadores e/ou os pedagogos responsáveis pela formação dos professores resolveram achincalhar os formandos, exortando-os a compor músicas infantis e a cantar desbragadamente tributos às virtudes do Magalhães. Dizem que quem não participasse não se habilitaria ao sorteio de um fantástico Magalhães. Dizem, muitos dos que participaram, que nunca se sentiram tão constrangidos. Dizem que havia formadores do Leste a falar inglês, apresentando slides em português e senhoras americanas, da Intel, a falar inglês, para professores portugueses.
Dizem que o produto é português ou melhor, ibero-americano, senão ter-se-ia preparado uma acção com formadores do Turquemenistão.
Dizem que os professores estão motivadíssimos para ensinar os seus alunos a operar com o Magalhães. Têm, apenas, dúvidas quanto ao idioma a utilizar, metodologia e origem do aparelho. Dizem que quem concebeu estas acções de formação deveria ser fotógrafo e viver na República Checa.
No caso que as televisões transmitiram foi apenas uma acção de formação em que se deram pérolas a porcos, para que estes ensinem uns leitõezinhos.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Tintim



Sem pudor, Sócrates assume a ligação promíscua que existe entre o poder político e o poder económico, algo impensável há alguns anos apenas.
Fê-lo entre os seus pares, que ouviram a mensagem, terão aplaudido e retirado boa dose de inspiração para fazerem o mesmo no seu país em circunstâncias semelhantes, isto é, com tempo de antena nas televisões, audiência farta e em fase de reeleição.
Mas, o mais engraçado é que não consigo entender se Sócrates se está a promover a si, ao seu governo ou ao Magalhães. Na primeira hipótese, apodera-se do mérito alheio e usa a seu belo prazer o investimento da JP Sá Couto para fomentar a sua imagem de político preocupado com a educação das crianças. Se pretende promover o seu governo, está de novo a apropriar-se de capital alheio, a que acresce o facto de ridicularizar os seus ministros ao afirmar que esta é a sua única ferramenta de trabalho. Percebem-se as gafes do orçamento.
Se, ao contrário, está a promover o Magalhães, usa a sua influência política e o seu tempo de antena privilegiado para promover um produto específico, desenvolvido por uma empresa privada, única beneficiada com a mensagem publicitária produzida.
Esta ligação entre a economia e a política, que os povos de todo o mundo percebem, tem-se agudizado, sabendo-se hoje que não serve os interesses dos estados, apenas de alguns tipos, muito poucos, poucos demais para que se continue a promover esta promiscuidade.
O cenário montado na abertura desta cimeira abre portas a uma nova forma de sponsoring, em que as empresas de um dado país colocam os seus produtos à vista do povo e usam os políticos como celebridades para os publicitarem. Ninguém sabe o cachet cobrado pelo artista, quais são as agências que promovem as celebridades políticas e quais os custos de produção e compra de espaço para emitir a mensagem. Pior, não sabemos que produtos ou serviços se qualificam para este tipo de publicidade.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

O exemplo


Um dos maiores fabricantes mundiais de automóveis esteve em grande evidência este fim-de-semana em Lisboa, mostrando a quem se deslocou à Avenida da Liberdade como é que se apresenta e promove um novo produto de grande consumo.
A Renault mostrou orgulhosamente o seu Novo Mégane, a terceira geração de um veículo destinado à classe média, aos papás e mamãs de família que andam agora bastante mais desaustinados à conta da maldita crise financeira.
O segmento onde se insere o Mégane é o mais importante para os construtores generalistas europeus, pelo que a ponderação atribuída ao desenvolvimento, produção, apresentação e comercialização destes automóveis é imensa. A segunda geração do Mégane vendeu 2,5 milhões de unidades entre 2002 e 2006 e em Portugal foi a viatura mais vendida do segmento médio no mesmo período.
A Renault é, a par da VW, a marca que mais vende na Europa. Tem responsabilidades assumidas como instituição, as suas campanhas de comunicação assentam na difusão de uma mensagem ecológica e amiga do ambiente, alegando que os seus produtos respeitam o planeta e a sustentabilidade da vida na Terra.
A imagem que a Renault transmitiu com o circo que trouxe a Lisboa foi a oposta. E este circo já percorreu mais de meio mundo, literalmente. O público foi brindado com um estranho show de viaturas feias, mal paridas e pior pintadas, cuja principal habilidade era permanecer em pião sobre si próprias, enquanto o seu transpirado piloto saía e se afastava, olhando-a de frente como se a não temesse. Claro que durante este período de tempo a triste carripana fazia um barulho ensurdecedor, queimava pneu até mais não e poluía o ambiente com uma alegria invejável. Depois do seu destemido piloto voltar a trepar para o seu interior, seguiam-se mais uns quantos piões e habilidades acessórias até que o mesmo se decidia a por cobro ao saloio espectáculo. A electrónica tem talentos infinitos…
Seguiram-se-lhe repetições e mais repetições, umas aceleradelas dos Mégane de troféu e outras do Renault de Fórmula 1.
Confesso que tive vergonha suficiente para me retirar antes do final da cena de circo. Como é que um construtor automóvel, com tão elevadas responsabilidades sociais, apresenta o seu principal produto com tão desajustada manobra, poluindo, apelando ao consumo ineficaz de combustível com tamanha irresponsabilidade, queimando pneu com gula e sem pudor, enchendo a mais emblemática avenida da capital com tanto ruído?
Numa época de crise acentuada, com as famílias da classe média em sérias dificuldades para cumprirem as mais básicas obrigações diárias, o construtor francês mostrou estar completamente fora de foco, nos antípodas do bom senso e da sensibilidade.
A indústria automóvel deveria estar motivadíssima para desenvolver energias alternativas que nos libertassem da dependência petrolífera, optimizando os motores de combustão interna para se tornarem menos poluentes e mais eficientes enquanto não se vulgarizarem as novas fontes de energia, mostrando-nos o caminho a seguir na busca do equilíbrio energético. Não o oposto.

domingo, 26 de outubro de 2008

Deficit

Ou a falta de valores da sociedade contemporânea


Toda a gente, a que é gente e a que pensa ser gente, tem opinado sobre o estado actual da economia, sobretudo desde que a famosa bolha do imobiliário rebentou nos Estados Unidos.
Desde os mais iluminados indigentes, até aos mais ilustres financeiros, como é o caso do senhor Greenspan, passando pelos presidentes de quase todas as repúblicas mundiais, todos deram o seu contributo impagável para que povo e elites tentassem perceber melhor o que afinal se está a passar. O grande problema é que, como fácil e humilhantemente se tem visto, nenhum destes ilustríssimos cavalheiros faz a mais pequena ideia do que terá, efectivamente, acontecido.
O caso parece bicudo; desde 1929 que nada de semelhante se passara, pelo que a preocupação generalizada terá, muito certamente, fundamento.
Contudo, parece-me extremamente simples explicar e perceber o que aconteceu, não só neste caso, bem como noutros de importância igualmente capital para a sustentabilidade da vida no planeta.
Em primeiro lugar, este desastre resulta da ganância desmesurada dos mercados de capitais e dos seus agentes, todos sem excepção. Os cavalheiros que gerem estas instituições excederam-se na sua cruzada a favor do lucro fácil, delineando uma estratégia simples, mas de eficácia duvidosa: emprestar dinheiro a quem não podia pagar, com taxas de juro que nem mesmo aqueles que podem pagar, conseguiriam pagar. E, mais grave, acreditaram que tudo correria de feição, com as suas contas bancárias consequentemente mais gordas graças à usura perpetrada de forma vil, covarde e irresponsável sobre os mais pobres. Agora, que a bolha rebentou e todo o sistema está à beira do colapso, todos estes cavalheiros estão muito consternados e prestes a ter um ataque de nervos. A atitude dos políticos, banqueiros, jornalistas e povo em geral é ainda mais lamentável que os próprios acontecimentos. A preocupação vem-nos da iminência do fim do nosso bem-estar. Poucos, mesmo muito poucos, querem saber o que aconteceu às debilitadas famílias americanas que nos tramaram a vida com o incumprimento das suas obrigações junto da banca, dando origem a esta crise financeira mundial. Aliás, nunca ninguém quis saber se essas famílias tinham casa de todo, se viviam com dignidade ou se poderíamos fazer alguma coisa para melhorar a sua condição. Apenas os senhores da banca mostraram vontade de lhes facilitar a aquisição de casa, para continuarem a sua engorda infinita. Exactamente o mesmo que se passa em África e noutras partes do globo, onde políticos, polícias, militares e secretas oprimem nações inteiras, obrigando- -as a viver em condições absolutamente desumanas, paupérrimas, em países tão ricos como Angola, por exemplo, sugando até ao tutano os recursos desses estados, logo desses pobres povos; já ninguém sabe qual é a definição de estado.
A sociedade ocidental apenas se preocupará com isso, não com esses povos, mas com isso, se de alguma maneira isso poder afectar o seu bem-estar. Até lá vai continuar a sentar-se com esses opressores e exploradores inqualificáveis e a negociar com eles uma lista infindável de bens essenciais para o nosso bem-estar, pagando-lhes principescamente sem querer saber o que vai ser feito com esse dinheiro. E ainda lhes damos palmadas nas costas. Exactamente aquilo que fizemos com estes mafiosos de Wall Street, génios que não se demitem, apesar do sucedido.
Mas, se um dia a desgraça africana ou outra qualquer se abater sobre a sociedade ocidental, vamos fazer exactamente aquilo que estamos a fazer agora: atirar dinheiro dos estados para cima do problema, muito dinheiro, esperando que aqueles que provocaram o colapso tenham competência para resolver o bico-de-obra em que nos meteram.
A sociedade ocidental convenceu-se que o dinheiro resolve tudo, per si. E convenceu-se disto porque, tristemente, quem a conduz não tem mais nenhum valor, não se revê em mais nada, a não ser no dinheiro. Essa é a bitola pela qual tudo se mede. E a China é o exemplo acabado desta tragédia. Um país totalitarista, de esquerda, em que os valores tradicionais de esquerda cederam à tentação do lucro fácil, da clivagem social aguda. A esmagadora maioria do povo chinês continua subjugado, manietado, explorado, vivendo de forma inqualificável, vivendo na pobreza. Tem, no entanto, a fantástica hipótese de enriquecer, apesar de não ter a simples possibilidade de votar ou de se exprimir livremente. E o que fazem os defensores da sociedade ocidental? Instalam-se na China, exploram a mão-de-obra barata, ou seja o povo, engordando-se à farta, a si e a alguns, poucos, chineses.
Se tudo correr bem na China ou no Zimbabué, para os usurpadores do povo, tudo estará bem para os ocidentais. Se tudo tivesse corrido bem com o subprime, teria Bush ouvido falar dos americanos que não podiam comprar casa?
A mediocridade dos líderes mundiais é visível, apesar de tudo terem tentado fazer para que acreditássemos no seu único valor, que nos foi vendido em embalagens luxuosamente enlaçadas, de papel premium revestidas, mas sem nada lá dentro, apesar do preço. O pior é que nós, quase todos, achamos que a embalagem está cheia.
O deficit é de gente, de gente séria, com ideais, com valores sãos, com uma visão altruísta do mundo, em que a firmeza de carácter, a cooperação e a divisão da riqueza têm que ser palavras de ordem. Pessoas com coragem, sem o dinheiro como valor referencial. E se os líderes que o povo ocidental tem escolhido não cumprem, cabe ao povo o papel de se sublevar, aqui ou na China, sempre que quiser, desde que imbuído destes valores.
Afinal, a nossa vontade é soberana.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Pobre

O pobre é tão pobre que nem sabe que é pobre.

Não sabe que a sua pobreza lhe vem de dentro, do fundo, das entranhas.
Não sabe que há no mundo quem lhe meça a pobreza e a veja, desnuda, feia,
Feiura que jamais viu, nele ou nos outros, porque neles a tem que inventar.
Arma-se da sua pobreza, revestindo-a com a riqueza que lhe sobra, para dar e vender.
Mas dá apenas a pobreza, espalha-a como peste, sem saber que dela vai padecer até morrer.
O pobre é tão pobre que no meio da sua pobreza diz espalhar abundância.
Mas espalha a opulência que não tem e sorve a magnificência que afirma não querer, por ela luta sem tréguas, dá-lhe a pobreza de volta, sempre na volta.

O pobre é mesmo pobre, será sempre assim, pobre mesmo pobre.

Velho

Velho,

Voz firme, aplicava silêncio. Hoje suplico silêncio, que me ouçam.
Por entre convulsões de vozes que se atropelam, ouçam a minha, fraca de velho.
Se nada mais sou, cinzas ainda restam, queimem devagar que a pressa já não interessa.
Virgem de medo, sou virgem, mas de morte, não medo, que o medo já não mata, de medo.
Morto sim, vivo também, já não sou o vivo que vive aqui dentro. Vivo, mas fora, sei agora, porque dentro ainda não vivera.
Mas sei que vivera de nova, nova vida sem medo, sem medo, sem ele, ele que mata e não volta.
Fora eu afora, tocando com carinho aonde nunca tocara, menos velho seria, seria apenas velho.
Futuro chegado, já passado e sem presente, entre tempo, morto, vivo sem tempo, sobra-me o tempo.
O tempo que já não tenho.

Escrita

Escrevo,

Porque escrevo, porque sinto vontade.
Forma e conteúdo, ténues e frágeis, dominante estereótipo arrasa o senso, arrasa censos de gerações, de hábitos, de gente que era gente e nada indigente.
Hoje, fruto de tudo que nada é, de medos, de liberdades, gula grassa pelo meio, gula devora podridão nascida em berço de capital, mito mal explicado, nunca aplicado. Nem esse, nem o outro, já exumado, pestilento, bem ornado.
Canibais que já não se comem uns, mas outros, delícias de rico novo, misérias de pobre velho.
De velhos e novos, primeiro juntos, primeiro separados, por fim ajuntados, fluxo só um, cada vez mais um, um. Apenas um.
Muitos pagam pecado capital, poucos recebem dádiva de sangue.
Sangue, vermelho. Vida, incolor. Morte, já sem dor. Nem dói, não, não dói.
A mim já doeu, às vezes não. Se já nada doesse, não escrevesse.
Escrevo porque me dói.
Dói-me o mundo, dor grande e aberta, sem futuro.