
A ordem mundial, na sua perspectiva ocidental, será profundamente afectada pela fome, pela miséria, pela doença e pelas alterações climáticas. O crime violento fará parte deste cenário dantesco em que nenhum de nós desejará ver o seu pior inimigo envolvido.
Não sei se acontecerá nos próximos anos, sei que acontecerá neste século. E já não é evitável.
Existem dois problemas de fundo, estruturais, que, para além de não terem sido resolvidos no século XX, se têm agudizado no princípio deste novo século.
De um lado a pressão economicista e financeira, que persegue cegamente a fomentação da riqueza, do outro a completa ausência de valores sociais e humanos.
Ambos têm a mesma origem, contudo. Fundam-se no capitalismo liberal, a doutrina política e económica dominante do século XX. O facto de o século ter sido atravessado por uma corrente ideológica que funde a economia e a política é o primeiro erro grosseiro: ambas exigem controlo e regulação e ambas se deveriam ter regulado, sempre por oposição. O que esta fusão de ideais legitimou, foi a ideia de que se a economia estiver bem, tudo está bem, nada poderá correr mal.
Esta legitimação só poderia ter sido dada pela política, pelos políticos que abraçaram a teoria, falsa, de que o capitalismo era um modelo de estado. Mas não é. Os estados não podem fundar os seus ideais em modelos económicos. O resultado está à vista.
Não pensem os defensores da política marxista-leninista implementada na URSS que as doutrinas comunistas pré-queda do Muro de Berlim seriam diferentes. Estas executaram um modelo de gestão baseado no socialismo de estado, em que a economia era completamente controlada por este, que entendia legítimo o controlo absoluto. Era exactamente o mesmo modelo de gestão, mas invertido, isto é, num caso a economia e a finança controlam os ideais de estado, neste caso o estado controlava os ideais económicos e financeiros. O resultado está à vista, não funcionou, caiu de podre.
O que é muito difícil de entender pelo Ocidente é que o seu modelo de gestão tenha o mesmo erro, sobretudo porque ele vinga agora em quase todo o mundo, até numa China comunista e, agora que se converteu, próspera. E aqui reside o segundo erro: a definição de prosperidade. Entendeu-se, durante todo o século XX, que a prosperidade se definia em valores pecuniários, índices de bem-estar, bens materiais e poder de compra. Um estado próspero é um estado rico, com gente com muito dinheiro para consumir, que volta a colocar o dinheiro em circulação e assim por diante. Se não chegar, pede-se à banca, se o país precisar pede a outro e assim por diante. É uma pescadinha de rabo na boca, que parece nunca acabar. Mas é finito.
O que este esquema criou, logo, foi uma divisão terrível entre países ricos e pobres. Esta clivagem é brutal e foi criada pelo Ocidente, porque precisa dos recursos destes estados pobres (pobres pelos padrões capitalistas liberais), para continuar a criar riqueza, para florescer e se desenvolver, mantendo os elevados padrões de vida dos seus cidadãos.
O que é imensamente perverso neste sistema é que as populações dos países pobres morrem de fome, miseravelmente, todos os dias, recebendo esmolas dos ricos para minorar os efeitos do infortúnio, que ajudam por filantropia, como se a miséria destes povos fosse um problema apenas deles.
A doença completa um cenário de desgraça extrema, em que todo o tipo de maleitas, desde a malária até ao VIH grassam por estas almas, livremente, agudizando a sua condição, que de humana já nada tem.
Estes povos, colonizados pelos ocidentais capitalistas e comunistas, de diversas formas, em diversas épocas e com interesses tão díspares como o roubo da sua riqueza ou a sua ocupação por motivos estratégico-militares, retirou às suas populações a grandeza da sua terra e, numa espiral incontrolável de corrupção, violência e hipocrisia deixou-as na situação em que hoje se encontram.
Este primeiro efeito colateral da gestão política catastrófica que tem sido executada no planeta é brutal e é um problema de todos, por mais que nos queiramos fechar no nosso quintalzinho e achar que tudo vai bem.
O quintal do vizinho pode estar bem, mas o bairro vizinho está doente, muito doente e precisa de ajuda. No entanto, os democratas ocidentais compram e vendem no bairro vizinho, subornando o gangster mor para que lhes dê a riqueza da sua terra, aceitando em troca as armas ocidentais, o capital, a protecção e o acesso à banca suíça para guardar o dinheiro sujo e sangrento que recebe, todos os dias, todos os anos. Perpetuam-se no poder, nalguns casos, mais do Saddam Hussein, e ninguém os destitui.
Um erro que vai ser chorado, sofrido e carpido pelo Ocidente.
(continua)
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