quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Fórmula de pobre


Os portugueses não conseguem perceber que o aumento do volume de facturação pode ser atingido de duas formas: aumentando o preço unitário de venda e mantendo o número de unidades vendidas ou diminuir o preço unitário de venda e aumentar o número de unidades vendidas. O povo que pede para os automóveis uma política fiscal mais equilibrada, raramente utiliza a mesma perspectiva para analisar o seu negócio, isto é, aumentar o desconto para potenciar o volume de facturação. Assentam o raciocínio no pressuposto de que a margem de uma unidade é tudo. Não têm uma visão global da actividade que desenvolvem e suas implicações.
É crónico na nossa sociedade, revela um povo pouco preparado para os desafios da gestão e nada preparado para o risco, para a decisão, para a proactividade e para a condução do seu próprio destino.


Ora, com o estado passa-se exactamente o mesmo, até porque os cavalheiros que por lá têm passado fazem parte deste grupo de portugueses sem visão, que prefere ganhar muito hoje, num negócio, do que ganhar ainda mais, durante o mês, fazendo mais negócios. E por isso é que os automóveis são estupidamente tributados. Não só o acto de compra e consequente legalização é absolutamente incomportável, bem como todos os outros actos naturais no quotidiano de um automóvel são insuportáveis para a carteira do homem normal português. IUC, seguro, portagens, combustíveis têm preços megalómanos e que poucos suportam com à-vontade.
Para pegar num exemplo simples, um veículo do segmento médio (Golf, Astra, C4), com motor 1.6 litros a gasóleo que custe € 27000,00, paga em ISV e IVA €7500,00, ou seja 27,2% do valor total de aquisição.
Mas, se a mesma viatura tiver um motor com 2 litros paga €14000,00 de impostos, ou seja, dobra o valor dos ditos, ficando com um preço final de €35000,00. E assim sucessivamente. Esta é a lógica do Imposto Sobre Veículos, já era a lógica do imposto anterior, ambos taxados de IVA, para que dúvidas não haja em relação às necessidades do estado em matéria de receita fiscal.
Em Espanha, para não ir mais longe, no primeiro caso o preço será de €22500,00 e no segundo, €25500,00.
Em Portugal adquire-se uma viatura pior, por um preço superior. Se compararmos o preço da versão 2.0 litros em Portugal e Espanha, um português pagará mais dez mil euros pelo mesmo bem. Um português que é mais pobre, ganha muito menos que o seu compadre espanhol, vê-se obrigado a pagar por um bem essencial aquilo que ele não vale.
Voltando ao raciocínio inicial, se o estado tivesse o arrojo de legislar bem (e com legalidade), permitindo aos portugueses comprar melhores viaturas por menos dinheiro, vender-se-iam mais e melhores automóveis, dinamizar-se-ia um sector muito importante da economia, aumentar-se-ia a segurança na estrada, reduzir-se-iam os acidentes e os mortos e estropiados nas estradas portuguesas, vender--se-ia mais combustível e teríamos um povo mais feliz, menos endividado e com mais dinheiro no bolso para consumir, adquirindo outros bens que pagam IVA e cuja receita reverte a favor do estado. Mas para isso, os nossos políticos teriam que ter visão, capacidade de gestão e inteligência para perceber o efeito benéfico, para o estado, de uma boa decisão. Como somos uma cambada de maus gestores, temos como modelo de imposto sobre os automóveis, o modelo de gestão que aplicamos no nosso negócio. Parolo, limitado e ineficaz. Em suma, atrasado, tão atrasado como o país. Pobre.

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