terça-feira, 4 de novembro de 2008

Trinta e cinco



Trinta e cinco anos a completar em Abril, a 25.
Quando os nobres Capitães de Abril resolveram acabar com a ditadura de Marcelo, abriram uma Caixa de Pandora extraordinária. Hoje começamos a perceber com clareza o que nos reservava essa caixa e quão intricado era o seu conteúdo.
Ao povo foi prometido o fim da opressão, da distribuição desigual de riqueza e da perseguição política; começava uma era em que se escolheriam os políticos, nas urnas, gente que seria mais transparente, mais competente e mais honesta. Gente do povo, para governar o povo, o que significava também o fim das cunhas.
O fim do capital foi um grito de ordem dos revolucionários; doravante a igualdade entre classes seria uma realidade, os ricos não seriam cada vez mais ricos e os pobres não seriam cada vez mais pobres. A miséria, essa, acabaria de vez.
A saúde para todos, através do SNS, vinha para ficar e o Estado seria, agora sim, uma pessoa de bem, olhando pelos seus como um bom pai de família.
Os ideais políticos, a discussão desses ideais, a troca de ideias, a argumentação tenaz de todos os políticos, da esquerda, do centro e de direita, contribuíam para o esclarecimento do povo, para o enriquecimento da democracia e para a maturidade de um sistema que só podia ser aplaudido. Portugal era finalmente um país livre, apto a abrir-se para o mundo e fazer crescer o seu povo e as suas instituições democráticas, enfim libertas do gesso opressor do Estado Novo.
O povo estava motivado, participativo, eufórico, radiante, cheio de vontade de fazer acontecer. Votar, escolhendo o caminho por maioria e democraticamente. Cooperar, rumo a um futuro melhor, com mais educação, mais formação. As gerações futuras seriam mais competentes, mais capazes e mais rigorosas.
Tristemente, a grande maioria destas promessas não se tornou realidade.
Logo após a revolução o povo tomou de assalto o património da maioria dos ricos, do capital. O latifúndio foi derretido, em poucos meses. O povo ocupou as empresas, as fábricas e os labores agrícolas dos ricos e desavergonhados exploradores, que se amanhavam com o trabalho alheio, pagando miseravelmente ao povo, explorando-o vil e cobardemente, com a protecção do Estado, leia-se Novo. O Estado, agora já não Novo e sim Revolucionário, apoderou-se das empresas privadas, nacionalizando-as com a mesma moral com que Salazar havia governado o país durante décadas. Do Portugal atrasado e desigual, opressor do povo, nasceu um Portugal pretensamente igualitário para os trabalhadores e desigual para os empreendedores, opressor do capital privado e do desenvolvimento, da ordem e do progresso. Muitos capitalistas escaparam- se para o Brasil, para aí recomeçar uma vida.
Por muito pouco não se juntou a este cardápio a opressão, agora da outra mão, mas igualmente castradora, igualmente terrível e censurável.
Do Ultramar chegaram hordas de portugueses, os que não foram chacinados pelas hordas de povos sublevados, que lutavam pela sua independência há anos. Vieram quase todos com uma mão cheia de nada, à procura de um canto sossegado, sem guerra e sem violência. Desenrascaram-se como puderam, refizeram as suas vidas como conseguiram. Todos vítimas de um Estado apressado demais em demonstrar que era democrático e nada preocupado em acautelar a vida, os bens e a sanidade do seu povo ultramarino.
Depressa se percebeu que a vida no Reino não havia medrado. O Reino estava em frangalhos, sem norte, desnorteado. A PIDE acabara, nem tudo era mau, mas dinheiro não havia, o povo estava teso e as condições de vida não melhoraram. A inflação era real e a bancarrota estava prestes a tornar-se verdade. Estes dois monstros papões, tão temidos na altura como hoje, preparavam-se para tomar Portugal. Mas Portugal não acabaria assim.
No final dos anos setenta, com a AD de Sá Carneiro, o país começou a endireitar-se, embora muito pouco e com esforço considerável. Havia um ideal, um projecto e uma visão de futuro, ou pelo menos parecia haver. A morte do então primeiro-ministro voltou a manchar os desígnios de uma Revolução que a muito se propusera, mas que na realidade ainda pouco tinha feito. Um país que não descobre como morrem os seus, é um país fraco, nada justo e muito pouco inspirador. Diria mesmo, nada democrático. A Monarquia e o Estado Novo terão dado voltas na campa, mas o Estado Revolucionário ainda hoje entende que a descoberta da verdade é irrelevante.
Com Cavaco Silva, ou melhor, com a CEE, o Santo Graal volta a estar ao alcance do povo, agora conhecido pelos cravos vermelhos e pelos parcos nível de desenvolvimento, de escolaridade e de competência.
Com os triliões da Europa a entrar desenfreadamente, todos os dias, não houve português que não experimentasse as virtudes prometidas pela revolução da década anterior. Voltavam alguns dos capitalistas que haviam fugido para o Brasil e o Estado Revolucionário, transparente, começava a vender aquilo que lhes tinha roubado dez ou quinze anos antes. E a vender caro, muito caro. Muito poucos dos malditos capitalistas conseguiram reaver o que lhes havia sido roubado a seguir ao dia 25; outros voltaram a comprar o que já tinha sido seu, pagando a peso de ouro ao tal Estado Revolucionário o preço justo pela mercadoria.
Com tanto dinheiro a entrar nos bolsos do dito Estado não houve falta de betão, nem de cursos de formação. Até um Centro Cultural, com orçamento controlado e custo descontrolado e uma grande ponte, a maior da Europa, aqui nasceu, ou não fosse a capital o centro do Reino. O crédito vulgarizou-se, o português comprou casa e era finalmente proprietário do seu castelo e, não menos importante, do seu automóvel. Vestia-se bem melhor, ia almoçar fora com a família, passeava até ao Algarve e alguns até já iam à Madeira. Só que o português continuava burro e incompetente, porque o dito estado Revolucionário perdera o embalo da Revolução e em vez de ideias e de conhecimento, espalhava dinheiro. E o dinheiro não ensina nada a ninguém.
Portugal estava prestes a transformar-se num Estado capitalista e ultra-liberal, última moda proveniente das federações muito evoluídas como os States, ou a CE.
O hino ao capitalismo autenticou-se quando, incrédulos, assistimos à queda do Muro de Berlim e do socialismo comunista, criado, regulado e aplicado por esse mundo fora pela URSS. Com a queda do Muro, o seu modelo de Estado caiu também, dando origem à exemplar Federação Russa que hoje conhecemos, capitalista e muito pouco interessada em defender os interesses dos seus trabalhadores. Judo, petróleo e máfia.
Contudo, esta conveniente queda legitimou o capitalismo como único modelo possível de desenvolvimento, pelo que a maior parte dos países mundiais, Portugal incluído, o abraçou como a derradeira etapa rumo ao Céu.
Com alguns tropeções do Toneca, cujas dificuldades a matemática o tornariam célebre, um anito de aquecimento do José Manuel para voos mais altos, uns mesitos do Santana interrompidos por um corajoso e imparcial Presidente da República e uma maioria do Sócrates chegámos a dois mil e oito, prestes a entrar em dois mil e nove e a celebrar trinta e cinco anos de Democracia.
A caixa aberta pelos capitães e pelos seus camaradas estava cheia de surpresas, ninguém imaginaria.
Portugal é hoje um país absolutamente diferente. Eu posso escrever este texto e publicá-lo no meu blogue. Há mais automóveis, mais betão, mais estradas e auto-estradas que vão daqui para todo o lado, mais comboios, parece que vai haver TGV, mais centros comerciais, mais lojas e muito mais, mas mesmo muito mais capitalistas. Há também, dois milhões de pobres, de pobres que vivem abaixo do limiar de pobreza. Há ricos que são ainda mais ricos e pobres que são ainda mais pobres. Há uma agonizante classe média que não sabe se o dinheiro do mês chega para pagar as contas todas, porque as contas estão sempre a aumentar e o dinheiro sempre a diminuir.
Há gente que não pode pagar a casa onde vive e famílias inteiras da classe média que dependem de ajuda humanitária para comer.
Há tanta precariedade no emprego, que chamar nomes ao Estado Novo nesta matéria é indecoroso. O Estado, agora completamente de direita, capitalista e ultra-liberal, é o principal explorador do povo. Dá-lhe empregos com recibo verde, subcontrata para não ter que contratar, despede sem justa causa e transfere sem perguntar.
Este estado, que já vendeu todos os anéis do povo, suga agora o tutano das empresas, das pequenas empresas, das micro-empresas e do povo trabalhador. Usa uma maquineta chamada Fisco, que alega ser muito eficiente. É verdade, tem uma eficiência extraordinária para receber e uma ineficiência conveniente para pagar, para devolver ao povo aquilo que é seu.
Este estado, agora capitalista, paga e deixa que se paguem ordenados vergonhosos aos gestores e quadros superiores de empresas, públicas e privadas, obrigando o povo a viver com as migalhas que sobram. Povo a que este país já chamou de trabalhador, de gente que tinha que ter direitos, que tinha o direito a ter direitos. Gente que era explorada pelo capital. Hoje, a mesma gente é ainda mais explorada pelo capital, que agora se chama grande capital. E ao povo chamamos portugueses e portuguesas, porque povo é uma palavra revolucionária.
Os latifundiários voltaram em força, com o consentimento da classe política que, ao invés da classe que governava o Estado Novo, enriqueceu em três tempos, tratou de arranjar esquemas de reforma convenientes e de se espalhar pelas maiores empresas do país, garantindo lugares chave, de influência determinante para o futuro do povo. Na realidade a classe política tornou-se, ela própria, latifundiária.
Os cargos públicos são agora jobs for the boys, ou seja preenchidos por cunha, como se dizia antigamente. A cunha tem sempre as cores do poder. Só que agora há ainda mais boys e ainda mais cunhas.
Este é o país em que não sabemos qual a ligação que pode existir entre o político da res pública e uma empresa de computadores. O país em que não sabemos se a ligação que existe entre dois políticos, um que agora é gestor e outro que é ministro, teve ou não influência determinante num negócio em que estão envolvidos os superiores interesses da nação.
Este é hoje o país da justiça vergonhosa, das polícias desautorizadas e sem meios, dos tribunais em ruínas e das escolas fechadas. Este é o país que manda os seus filhos irem nascer a Espanha, apenas e só porque é mais barato. Este é o país em que se diminui o grau de exigência no ensino apenas para melhorar a estatística. Este é o país da anarquia financeira, em que bancos e gasolineiras fazem o que querem, como querem e quando querem. Este é o país das leis por medida, para satisfazer nichos ou empresas específicas, para desproteger o povo.
Este é o país em que o povo não sabe escrever nem sabe somar, mas que é doutor de qualquer coisa ou engenheiro de obras feitas.
Este é o país que tem sido governado pela mesma classe política desde 1974, pelos mesmos que se revezaram, se desdobraram e lá continuam.
O povo foi chamado a votar. Votou durante trinta anos, dando cada vez mais votos ao partido da abstenção. Disso pouco ou nada se fala, porque de conveniente para a classe que conduz nada tem. Noutros tempos seria um sinal, hoje em dia é irrelevante.
O povo teve a responsabilidade de eleger. Cumpriu.
Os eleitos não cumpriram. Foram estes cavalheiros que, durante trinta e cinco anos, não tiveram uma visão estratégica para Portugal. Não olharam para o futuro, não planearam e não se uniram em torno de uma causa nobre. Insultaram-se uns aos outros, sacaram responsabilidades a quem os precedeu, esquecendo-se sempre que haviam precedido quem lhes sucedeu. Deixaram, legislatura atrás de legislatura, um legado de incompetência, de laxismo e de vazio de ideais. Trocaram favores, jeitos e conveniências, em frente ao povo, em nome do povo. No governo não conseguem executar, na oposição têm as ideias certas e conhecem o método de implementação.
A classe política portuguesa não presta, porque não é competente. Não sabe trabalhar, cumprir a sua função. Não tem sentido de Estado.
Os idealistas de esquerda e de direita desapareceram, vendidos aos ideais do capitalismo selvagem. Não se discutem ideias, mas sim défices, inflação, taxas de juro de referência e avais para a banca.
Fala-se de dinheiro, de dinheiro e de mais dinheiro, num palavreado tecnocrático que irritaria até o Estado Novo. Gente que é vazia de conteúdo, estéril, governa este país como se da verdade fosse dona. Dão-se casas com rendas técnicas a quem ganha uma pipa de massa, grava-se meio orçamento numa pen, fala-se do escândalo de Felgueiras, mas ninguém se impõe, ninguém põe ordem no Reino e ninguém se responsabiliza ou é responsabilizado por nada.
Em bom rigor, Portugal está hoje muito pior do que estava em 1974. As exigências do mundo neste início de século são incomparavelmente maiores do que aquelas que existiam em Abril de 74 e Portugal não está nada preparado para os desafios do presente e do futuro.
O povo português continua a ter uma formação deficiente, está menos qualificado que os seus congéneres europeus e sofre de falta de motivação crónica. Seja o povo trabalhador ou o povo latifundiário.
A Espanha de Franco fez exactamente o oposto em trinta e quatro anos. A Irlanda é hoje um país desenvolvidíssimo. Até a Grécia, com quem discutíamos o último lugar na Europa dos 15, já nos passou faz muito. Nesta Europa dos 27, estamos prestes a fechar o pelotão.
E ainda só passaram trinta e cinco anos. Incompletos.

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