sábado, 1 de novembro de 2008

O Gato e o gospel

Finalmente conseguiram entalar os Gato Fedorento. A Entidade Reguladora para a Comunicação Social vai abrir um processo contra os humoristas. Em causa está o sketch em que se satirizava a formação do Magalhães.
A peça, que usou cânticos gospel para parodiar as acções de formação do aparelho, foi considerada ofensiva pelos beatos e pelas beatas, escandalizados com tamanha heresia.
O escândalo reside apenas e tão só na mediocridade desta gente. Incapazes de se escandalizarem com a miséria reinante, com a educação deficiente, com a crise de valores que afecta a sociedade portuguesa, escandalizam-se porque se parodiou algo utilizando uma característica específica de uma determinada ordem religiosa. Nem sequer se satirizou a dita ordem.
Estes estafermos, falsos defensores da moralidade e dos bons costumes, ainda têm um peso desproporcionado na nossa sociedade. Apenas se tinham recebido, de acordo com o Jornal Expresso de hoje, cerca de cem queixas na Entidade Reguladora para a Comunicação Social, o que é ridículo tendo em conta a audiência do programa.
Há alguns anos, por parodiar algumas figuras da História de Portugal, Herman José foi incomodado pelo parlamento e viu-se obrigado a acabar com a brincadeira.
Em ambos os casos estamos perante um acto censório, típico de uma sociedade fechada, retrógrada e subdesenvolvida. Se num caso são os beatos e beatas, noutro caso foram os deputados, o que me traz à memória a Inquisição e a censura política.
Há facções da sociedade portuguesa que ainda não se dão bem com a liberdade de expressão, que usam o seu poder de forma perniciosa para atingirem os seus negros objectivos.
Os Gato Fedorento têm tido a coragem de ridicularizar o que este país tem de ridículo. Felizmente para os quatro humoristas e infelizmente para nós, a lista de opções para este fim é interminável.
Esperemos que não os consigam calar, ou transformar em algo sensaborão, parolo e de mau gosto, como já fizeram com outros humoristas no passado.

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