domingo, 26 de outubro de 2008

Deficit

Ou a falta de valores da sociedade contemporânea


Toda a gente, a que é gente e a que pensa ser gente, tem opinado sobre o estado actual da economia, sobretudo desde que a famosa bolha do imobiliário rebentou nos Estados Unidos.
Desde os mais iluminados indigentes, até aos mais ilustres financeiros, como é o caso do senhor Greenspan, passando pelos presidentes de quase todas as repúblicas mundiais, todos deram o seu contributo impagável para que povo e elites tentassem perceber melhor o que afinal se está a passar. O grande problema é que, como fácil e humilhantemente se tem visto, nenhum destes ilustríssimos cavalheiros faz a mais pequena ideia do que terá, efectivamente, acontecido.
O caso parece bicudo; desde 1929 que nada de semelhante se passara, pelo que a preocupação generalizada terá, muito certamente, fundamento.
Contudo, parece-me extremamente simples explicar e perceber o que aconteceu, não só neste caso, bem como noutros de importância igualmente capital para a sustentabilidade da vida no planeta.
Em primeiro lugar, este desastre resulta da ganância desmesurada dos mercados de capitais e dos seus agentes, todos sem excepção. Os cavalheiros que gerem estas instituições excederam-se na sua cruzada a favor do lucro fácil, delineando uma estratégia simples, mas de eficácia duvidosa: emprestar dinheiro a quem não podia pagar, com taxas de juro que nem mesmo aqueles que podem pagar, conseguiriam pagar. E, mais grave, acreditaram que tudo correria de feição, com as suas contas bancárias consequentemente mais gordas graças à usura perpetrada de forma vil, covarde e irresponsável sobre os mais pobres. Agora, que a bolha rebentou e todo o sistema está à beira do colapso, todos estes cavalheiros estão muito consternados e prestes a ter um ataque de nervos. A atitude dos políticos, banqueiros, jornalistas e povo em geral é ainda mais lamentável que os próprios acontecimentos. A preocupação vem-nos da iminência do fim do nosso bem-estar. Poucos, mesmo muito poucos, querem saber o que aconteceu às debilitadas famílias americanas que nos tramaram a vida com o incumprimento das suas obrigações junto da banca, dando origem a esta crise financeira mundial. Aliás, nunca ninguém quis saber se essas famílias tinham casa de todo, se viviam com dignidade ou se poderíamos fazer alguma coisa para melhorar a sua condição. Apenas os senhores da banca mostraram vontade de lhes facilitar a aquisição de casa, para continuarem a sua engorda infinita. Exactamente o mesmo que se passa em África e noutras partes do globo, onde políticos, polícias, militares e secretas oprimem nações inteiras, obrigando- -as a viver em condições absolutamente desumanas, paupérrimas, em países tão ricos como Angola, por exemplo, sugando até ao tutano os recursos desses estados, logo desses pobres povos; já ninguém sabe qual é a definição de estado.
A sociedade ocidental apenas se preocupará com isso, não com esses povos, mas com isso, se de alguma maneira isso poder afectar o seu bem-estar. Até lá vai continuar a sentar-se com esses opressores e exploradores inqualificáveis e a negociar com eles uma lista infindável de bens essenciais para o nosso bem-estar, pagando-lhes principescamente sem querer saber o que vai ser feito com esse dinheiro. E ainda lhes damos palmadas nas costas. Exactamente aquilo que fizemos com estes mafiosos de Wall Street, génios que não se demitem, apesar do sucedido.
Mas, se um dia a desgraça africana ou outra qualquer se abater sobre a sociedade ocidental, vamos fazer exactamente aquilo que estamos a fazer agora: atirar dinheiro dos estados para cima do problema, muito dinheiro, esperando que aqueles que provocaram o colapso tenham competência para resolver o bico-de-obra em que nos meteram.
A sociedade ocidental convenceu-se que o dinheiro resolve tudo, per si. E convenceu-se disto porque, tristemente, quem a conduz não tem mais nenhum valor, não se revê em mais nada, a não ser no dinheiro. Essa é a bitola pela qual tudo se mede. E a China é o exemplo acabado desta tragédia. Um país totalitarista, de esquerda, em que os valores tradicionais de esquerda cederam à tentação do lucro fácil, da clivagem social aguda. A esmagadora maioria do povo chinês continua subjugado, manietado, explorado, vivendo de forma inqualificável, vivendo na pobreza. Tem, no entanto, a fantástica hipótese de enriquecer, apesar de não ter a simples possibilidade de votar ou de se exprimir livremente. E o que fazem os defensores da sociedade ocidental? Instalam-se na China, exploram a mão-de-obra barata, ou seja o povo, engordando-se à farta, a si e a alguns, poucos, chineses.
Se tudo correr bem na China ou no Zimbabué, para os usurpadores do povo, tudo estará bem para os ocidentais. Se tudo tivesse corrido bem com o subprime, teria Bush ouvido falar dos americanos que não podiam comprar casa?
A mediocridade dos líderes mundiais é visível, apesar de tudo terem tentado fazer para que acreditássemos no seu único valor, que nos foi vendido em embalagens luxuosamente enlaçadas, de papel premium revestidas, mas sem nada lá dentro, apesar do preço. O pior é que nós, quase todos, achamos que a embalagem está cheia.
O deficit é de gente, de gente séria, com ideais, com valores sãos, com uma visão altruísta do mundo, em que a firmeza de carácter, a cooperação e a divisão da riqueza têm que ser palavras de ordem. Pessoas com coragem, sem o dinheiro como valor referencial. E se os líderes que o povo ocidental tem escolhido não cumprem, cabe ao povo o papel de se sublevar, aqui ou na China, sempre que quiser, desde que imbuído destes valores.
Afinal, a nossa vontade é soberana.

Sem comentários: