
Um dos maiores fabricantes mundiais de automóveis esteve em grande evidência este fim-de-semana em Lisboa, mostrando a quem se deslocou à Avenida da Liberdade como é que se apresenta e promove um novo produto de grande consumo.
A Renault mostrou orgulhosamente o seu Novo Mégane, a terceira geração de um veículo destinado à classe média, aos papás e mamãs de família que andam agora bastante mais desaustinados à conta da maldita crise financeira.
O segmento onde se insere o Mégane é o mais importante para os construtores generalistas europeus, pelo que a ponderação atribuída ao desenvolvimento, produção, apresentação e comercialização destes automóveis é imensa. A segunda geração do Mégane vendeu 2,5 milhões de unidades entre 2002 e 2006 e em Portugal foi a viatura mais vendida do segmento médio no mesmo período.
A Renault é, a par da VW, a marca que mais vende na Europa. Tem responsabilidades assumidas como instituição, as suas campanhas de comunicação assentam na difusão de uma mensagem ecológica e amiga do ambiente, alegando que os seus produtos respeitam o planeta e a sustentabilidade da vida na Terra.
A imagem que a Renault transmitiu com o circo que trouxe a Lisboa foi a oposta. E este circo já percorreu mais de meio mundo, literalmente. O público foi brindado com um estranho show de viaturas feias, mal paridas e pior pintadas, cuja principal habilidade era permanecer em pião sobre si próprias, enquanto o seu transpirado piloto saía e se afastava, olhando-a de frente como se a não temesse. Claro que durante este período de tempo a triste carripana fazia um barulho ensurdecedor, queimava pneu até mais não e poluía o ambiente com uma alegria invejável. Depois do seu destemido piloto voltar a trepar para o seu interior, seguiam-se mais uns quantos piões e habilidades acessórias até que o mesmo se decidia a por cobro ao saloio espectáculo. A electrónica tem talentos infinitos…
Seguiram-se-lhe repetições e mais repetições, umas aceleradelas dos Mégane de troféu e outras do Renault de Fórmula 1.
Confesso que tive vergonha suficiente para me retirar antes do final da cena de circo. Como é que um construtor automóvel, com tão elevadas responsabilidades sociais, apresenta o seu principal produto com tão desajustada manobra, poluindo, apelando ao consumo ineficaz de combustível com tamanha irresponsabilidade, queimando pneu com gula e sem pudor, enchendo a mais emblemática avenida da capital com tanto ruído?
Numa época de crise acentuada, com as famílias da classe média em sérias dificuldades para cumprirem as mais básicas obrigações diárias, o construtor francês mostrou estar completamente fora de foco, nos antípodas do bom senso e da sensibilidade.
A indústria automóvel deveria estar motivadíssima para desenvolver energias alternativas que nos libertassem da dependência petrolífera, optimizando os motores de combustão interna para se tornarem menos poluentes e mais eficientes enquanto não se vulgarizarem as novas fontes de energia, mostrando-nos o caminho a seguir na busca do equilíbrio energético. Não o oposto.
1 comentário:
Ó Vasco... e como se poderia, na tua opinião, passar uma mensagem ecológica, ajustada à crise, e ainda assim entusiasmante ao publico presente, ansioso por ver este pobre país de "pelintrões" (partícula do átomo descoberta por esse grande físico e politico.. António de Oliveira Salazar)na rota dos campeonatos de f1 e por demais espectáculos do género??? E o tal Megane? É que a malta se soubesse que não ia haver peões e pneus a patinar... se calhar ia achar uma seca! Não estive lá, mas se calhar o rugir do F1 pela avenida acima, colocou na cabeça de muitos dos presentes a imagem da maquina ideal para durante as filas da semana de trabalho, se "pisgarem" a alta velocidade para casa...! Parece-me sempre difícil de entusiasmar a "populaça" se não houver fumo, barulho e desperdício... Tipo sardinhada. Fumo da sardinha, barulho da malta a conversar aos berros como faz parte da nossa tradição bem nacional e um profundo desperdício de vinho que na maioria acaba urinado ou vomitado.... FESTA, é o que a malta gosta... se oferecerem umas "pegatinas" ou umas esferográficas... será o delírio!
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